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Dez inesquecíveis poemas de Mia Couto

Mia Couto é conhecido internacionalmente por suas extraordinárias histórias. Seus contos e seus romances são lidos em todos os continentes, em línguas, culturas e credos diversificados.

Valendo-se de uma linguagem marcadamente poética, essas histórias encantaram o mundo.

Como se não fosse o bastante, Mia é também autor de quatro livros de poesia: “Raiz de orvalho e outros poemas” (1999), “Idades, cidades, divindades” (2007), “Tradutor de Chuvas” (2011) e “Vagas e Lumes”, este publicado em 2014.

Selecionamos dez poemas dessas quatro obras de sorte a trazer a todos um indício valioso da genialidade poéticadesse escritor.

1 – O Amor, Meu Amor

Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

No livro “Idades cidades divindades”

2 – Para Ti

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida

No livro “Raiz de Orvalho e Outros Poemas”

3 – Destino

à ternura pouca
me vou acostumando
enquanto me adio
servente de danos e enganos

vou perdendo morada
na súbita lentidão
de um destino
que me vai sendo escasso

conheço a minha morte
seu lugar esquivo
seu acontecer disperso

agora
que mais
me poderei vencer?

No livro “Raiz de Orvalho e Outros Poemas”

4 – Espiral

No oculto do ventre,
o feto se explica como o Homem:
em si mesmo enrolado
para caber no que ainda vai ser.

Corpo ansiando ser barco,
água sonhando dormir,
colo em si mesmo encontrado.

Na espiral do feto,
o novelo do afecto
ensaia o seu primeiro infinito.

No livro “Tradutor de Chuvas”

5 – Saudade

Que saudade
tenho de nascer.
Nostalgia
de esperar por um nome
como quem volta
à casa que nunca ninguém habitou.
Não precisas da vida, poeta.
Assim falava a avó.
Deus vive por nós, sentenciava.
E regressava às orações.
A casa voltava
ao ventre do silêncio
e dava vontade de nascer.
Que saudade
tenho de Deus.

No livro “Tradutor de Chuvas”

6 – Mudança de Idade

Para explicar
os excessos do meu irmão
a minha mãe dizia:
está na mudança de idade.
Na altura,
eu não tinha idade nenhuma
e o tempo era todo meu.
Despontavam borbulhas
no rosto do meu irmão,
eu morria de inveja
enquanto me perguntava:
em que idade a idade muda?
Que vida,
escondida de mim, vivia ele?
Em que adiantada estação
o tempo lhe vinha comer à mão?
Na espera de recompensa,
eu à lua pedia uma outra idade.
Respondiam-me batuques
mas vinham de longe,
de onde já não chega o luar.
Antes de dormirmos
a mãe vinha esticar os lençóis
que era um modo
de beijar o nosso sono.
Meu anjo, não durmas triste, pedia.
E eu não sabia
se era comigo que ela falava.
A tristeza, dizia,
é uma doença envergonhada.
Não aprendas a gostar dessa doença.
As suas palavras
soavam mais longe
que os tambores nocturnos.
O que invejas, falava a mãe, não é a idade.
É a vida
para além do sonho.
Idades mudaram-me,
calaram-se tambores,
na lua se anichou a materna voz.
E eu já nada reclamo.
Agora sei:
apenas o amor nos rouba o tempo.
E ainda hoje
estico os lençóis
antes de adormecer.

No livro “Tradutor de chuvas”

7 – Idade

Mente o tempo:
a idade que tenho
só se mede por infinitos.

Pois eu não vivo por extenso.

Apenas fui a Vida
em relampejo do incenso.

Quando me acendi
foi nas abreviaturas do imenso.
Mia Couto

No livro “Vagas e lumes”

8 – Companheiros

quero
escrever-me de homens
quero
calçar-me de terra
quero ser
a estrada marinha
que prossegue depois do último caminho

e quando ficar sem mim
não terei escrito
senão por vós
irmãos de um sonho
por vós
que não sereis derrotados

deixo
a paciência dos rios
a idade dos livros

mas não lego
mapa nem bússola
porque andei sempre
sobre meus pés
e doeu-me
às vezes
viver
hei-de inventar
um verso que vos faça justiça

por ora
basta-me o arco-íris

em que vos sonho
basta-te saber que morreis demasiado
por viverdes de menos
mas que permaneceis sem preço

companheiros

9 – Promessa de uma noite

cruzo as mãos
sobre as montanhas
um rio esvai-se

ao fogo do gesto
que inflamo

a lua eleva-se
na tua fronte
enquanto tacteias a pedra
até ser flor

No livro “Raiz de orvalho e outros poema”

10 – O Espelho

Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.

Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo.

A idade é isto: o peso da luz
com que nos vemos.

No livro “Idades Cidades Divindades”

Por Nara Rúbia Ribeiro

Originalmente publicado no site Conti outra

 

Mia Couto escreve sua autobiografia, em registro poético

Autobiografia

Onde eu nasci
há mais terra que céu.

Tanto leito é uma bênção
para mortos e sonhadores.

E de tão pouco ser o céu
nasce o sol
em gretas nos nossos pés
e os corações se apertam
quando remoinhos de poeira
se elevam nos telhados.

As mães
espanam o teto
e poeiras de astros
cobrem o soalho.

De tão raso o firmamento,
a chuva tropeça nas copas
enquanto nuvens
se engravidam de rios.

Com tanta escassez de céu
não há encosto
nem para a mais minguante lua
e os meninos,
na ponta dos dedos,
ascendem estrelas.

Pois,
nessa terra
que é tanta para tão pouco céu,
calhou-me a mim ser ave.

Pequenas que são,
as minhas asas parecem-me enormes.

Envergando,
escondo-as dos olhares vizinhos.

Nas minhas costas
pesam
versos e plumas.

Voarei,
um dia,
sem saber
se é de terra ou de céu
a pegada do voo que sonhei.

Mia Couto, em “Vagas e lumes”.

Lisboa: Editorial Caminho, 2014.

Você conhece as “vagas” e os “lumes” de Mia Couto?

AS VAGAS E OS LUMES DE MIA COUTO

Confesso que sempre que me deparo com qualquer obra nova do Mia eu me sinto um tanto conturbada. Ansiosa pela leitura, não raro a procrastino, ou começo a ler e não concluo de imediato, postergando, sempre. Desta vez não foi diferente. Recebi, há alguns dias, o livro “Vagas e Lumes”, de Mia Couto. Hoje, após concluir a leitura, devo dizer que o livro me surpreendeu.

Apesar de ter nascido em Moçambique, um dos países mais pobres do mundo, marcado por profundas desigualdades sociais e assolado, na segunda metade do século passado, por duas grandes guerras, Mia Couto sempre nos traz, na noite escura que permeia toda a sua obra, algum luzeiro de esperança. No livro “Vagas e lumes” esse luzeiro aparenta ter sido momentaneamente ofuscado na dor, na dúvida, na saudade.

O poeta que sempre celebrou o sua condição de ave “em alguma vida fui ave”, hoje, no poema “autobiografia”, prefere esconder suas asas que, talvez, sejam afrontosas aos circunstantes, posto que onde nasceu “há mais terra que céu./Tanto leito é uma bênção/para mortos e sonhadores”.

Mia Couto sofreu a perda do pai em janeiro de 2013 e, em setembro deste ano, sua mãe também veio a falecer. O livro, parece-me, então, uma catarse. Um grito dilacerado. O seu modo de despedir-se dos seus. Assim o faz em “O habitante”, poema dedicado ao seu pai, no qual descreve as sensações de que inexiste a morte e a ausência do ser amado. Dirigindo-se diretamente ao pai, afirma o poeta: “Moras dentro”. Afinal, “só morre quem nunca viveu” – assinala no poema “Incertidão de óbito”. Acena a saudade de sua mãe, homenageia Drummond, João Cabral de Mello e Neto, Manoel de Barros e também Carlos Cardoso, seu amigo.MIA COUTO

Em “Vagas e lumes” o poeta continua a valer-se de metáforas muito suas. Sente-se árvore, no poema com o mesmo nome, assim como no poema Raiz. Permanece pássaro, no poema “Gaiola”. É pedra no poema “Estátua”: “Da abandonada estátua/ partilho o mineral destino”.

Sua paixão pela água: rios, mares e lágrimas, encontra variados registros. Em “Exíguos Anseios”, o poeta balbucia: “Um redondo de lágrima me basta”.

O Tempo está sempre presente, mas o poeta sabe sondá-lo e diz, no poema “Idade”: “a idade que tenho/ só se mede por infinitos/ Pois eu não vivo por extenso”. Enquanto no poema “Errata”, Mia assegura: “Quem é mortal, mente”.

E Mia Couto, exímio contador de histórias, valeu-se dos poemas para contar algumas. Tal qual em “Guerra”, “O naufrágio”, “A vez e a voz”, “A bela e o espelho”, “A casa”, “A mulher insone” e “O homem que amava a estrada”.

A morte reina absoluta em “Vagas e lumes”. Nos primeiros 12 poemas do livro, só para termos uma noção da recorrência temática, tivemos mais de dez alusões diretas à morte. É uma reflexão poética não sistematizada, caótica como a mente do poeta quando o coração sangra, sobre a vida, a morte que a integra e o pós-morte; a eternidade.

Assim como a morte é uma constante no livro, Deus também é. Esta última presença tão marcada me deixou de fato pensativa. A insistência em afirmar-se ateu, em demonstrar o seu descrédito na divindade, acaba por produzir um efeito invertido. Assim, do mesmo modo que seu pai é habitante da casa e habitante de seu íntimo sem que lá de fato o esteja, Deus também percorre todo o livro e o habita, sempre em letra minúscula: “deus”, mas onipresente.

No poema que dá nome ao livro, Mia Couto confessa:

“Há quem se deite

em fogo

para morrer.

Pois eu sou

Como o vagalume:

– só existo

quando me incendeio.”

Neste livro, embora se sinta vagalume, Mia me parece Fênix. Ave envergonhada de sua condição, ferida de morte na incandescência da vida, ardente em fogo, e em iminente ressurreição.

(Este texto foi escrito em Dezembro de 2014 e originalmente publicado em CONTI OUTRA